“Nem todo mundo está tão insatisfeito com a greve dos caminhoneiros”, avisa o universitário Peu Macêdo, 22 anos, artista multifacetado de Riachão do Jacuípe, Centro Norte da Bahia. Sua constatação parece deboche, ante tanta confusão causada pelos 10 dias de paralisação nacional dos homens da boleia, mas não passa de uma maneira para fazer deste limão uma limonada – ainda que a fruta não esteja chegando aos supermercados.

“A ideia da música surgiu, a princípio, da dificuldade que seria sair de casa. Em todos os jornais se falava da dificuldade de encontrar gasolina, da diminuição da frota de ônibus e isso, naturalmente, dificultaria as pessoas de saírem. Mas daí me veio uma questão: será que pra todo mundo é tão ruim não sair de casa?”, comentou.

Foi a partir daí que ele pensou em todos os casais que, não tendo tanto tempo de se encontrar, acharam na greve uma oportunidade de estar juntos. “Veio um refrão na cabeça com uma melodia e foi quando percebi que aquela ideia daria uma música”, contou ao CORREIO o estudante de Fonoaudiologia da Universidade Federal da Bahia (Ufba), ao explicar a gênese de ‘Greve de Caminhões’, lançada por ele esta semana.

Homem-banda
Cheio de arte, Peu assobia e chupa cana durante a gravação. Faz primeira e segunda voz, muitas caras e bocas, e ainda toca teclado, violão e cavaquinho. Toda a disposição para o trabalho, digna de um remador de Ben-Hur, só dá liga após uma edição com sobreposição de imagens e sons. Apesar da trabalheira, a música não mira pretendente específico.

“A música não é baseada em uma única situação real. Quando decidi transformar a ideia em música, tentei trazer elementos que fazem parte de boa parte dos relacionamentos. Bem que eu queria que ela fosse pra alguém, mas ela partiu de outros casais mesmo. Quem sabe com a repercussão eu não toque no coração de alguém. Nunca se sabe”, diz ele, se botando.

Por enquanto, a canção, que menciona o sorriso da menina como algo mais importante que o preço da gasolina, tem tido excelente recepção nas redes sociais. “Tem sido muito boa. Tipo, eu não tinha grandes pretensões quando compartilhei a música. Essa foi a primeira composição que eu compartilhei assim, abertamente. Como ela tem um contexto, acontece em uma situação específica, eu achei que devia compartilhar, ou ela ficaria esquecida”, explicou Peu, que busca o canudo de fonoaudiólogo, mas tenta achar também um espacinho no showbizz.

“Eu componho há uns 12 anos. E já tive banda com uns amigos da minha cidade, mas com o tempo, cada um foi estudar em um lugar e tivemos que parar a banda. Hoje, tenho me dedicado mais aos estudos. Canto profissionalmente em algumas ocasiões, a música, no geral, é um hobby pra mim, mas não descarto a possibilidade de seguir na música, porque em toda a minha vida a música esteve presente”, comenta o prodígio jacuipense, que diz apoiar a greve que inspirou sua candidata a hit.

“São trabalhadores que, muitas vezes, são submetidos a condições absurdas de trabalho e agora, a preços absurdos de combustível. Apoio e acho que, inclusive, a classe trabalhista deveria aprender muito esse movimento. A reforma trabalhista veio pra precarizar ainda mais as condições de trabalho, e se os trabalhadores não se unem e lutam por seus direitos, a tendência é piorar. Nada vem de graça”, discursa, abrindo a estrada também para a carreira política.

Confira a letra de ‘Greve de Caminhões’

Acordei num dia bom
Se bem que com você aqui, todo dia é mesmo bom
Ligo a tv, vejo um jornal
E uma notícia chama a minha atenção 

Tudo tá parado, não tem como sair
Sua única opção é continuar aqui
Já pensou que arriscado tu sair nessa condição?

Escolhe ai uma série e eu te faço um café
Fica ainda mais gostoso com o meu cafuné
Depois a gente aproveita a chuva e volta a dormir

Por mim, duraria mais um ano essa greve de caminhões
Pra te ter acordando do meu lado todas as manhãs
Teu sorriso me importa mais que o preço da gasolina
Acordar e te dizer: minha menina

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