Finalmente chegou ao fim a celeuma em torno da indicação do deputado federal Irmão Lázaro (PSC) para compor a chapa com José Ronaldo (DEM) como candidato ao Senado. O parlamentar cantor venceu a queda de braço com Jutahy Magalhães Jr. (PSDB), também candidato ao posto e que tentava alijar Lázaro do processo. Para além da vitória interna no grupo, o deputado do PSC pode também quebrar outro paradigma: ser eleito para o Senado estando fora da chapa do governador eleito – admitamos que Rui Costa (PT) é franco favorito.
As negociações para que Jutahy “aceitasse” Lázaro na chapa não foram isoladas no contexto local. O apoio do DEM à candidatura de Geraldo Alckmin (PSDB) à Presidência da República foi o empurrãozinho necessário para que o poder de veto do tucano fosse extinto. Há algum tempo se sabe que Lázaro é o mais competitivo candidato colocado no grupo e, segundo comentários de bastidores, chegaria a superar o favoritismo do ex-governador Jaques Wagner (PT) em alguns municípios.
Jutahy é um deputado em fim de carreira, como anúncio do próprio parlamentar, e tinha receio de terminar a disputa pelo Senado como quarto colocado – atrás dos dois nomes da chapa do governador, Jaques Wagner e Angelo Coronel (PSD), e do próprio Lázaro. Depois de muitas idas e vindas foi “obrigado” a aceitar a presença do cantor na chapa, mesmo sabendo que corre sérios riscos de pendurar as chuteiras de uma das mais tradicionais famílias políticas da Bahia sem êxito eleitoral.
Parlamentar desde a Constituinte de 1988, o tucano tem serviços prestados à Bahia. Essa posição é inegável. Entretanto manteve as sucessivas eleições mesmo sem ter expressividade na imprensa ou sem participar ativamente das discussões políticas da Bahia. Chegou a ser ministro do ex-presidente Itamar Franco e construiu a vida mais em Brasília do que na Bahia, ao longo de mais de 30 anos no Congresso Nacional. Agora, às vésperas de uma eleição majoritária da qual nunca participou como ator, recuperar o tempo perdido pode ser tarde demais.
Lázaro enfrenta certo favoritismo por acumular também o papel de ídolo musical, da cena evangélica e com certo quê de “outsider”. Ao incorporar um espírito de candidato competitivo, pode incorrer no erro do clima de “já ganhou”. O mesmo mal que pode alcançar nomes como Jaques Wagner e Angelo Coronel, este último o grande adversário a ser batido pelo deputado do PSC.
Caso consiga se manter na crista da onda, como sugerem os bastidores políticos, Lázaro tem tudo para ser o segundo senador da Bahia nas eleições de 2018, atrás apenas de um ex-governador cujo cacife eleitoral foi comprovado nas últimas três disputas majoritárias da Bahia. Se surfar corretamente, o deputado-cantor pode confirmar o pesadelo de Jutahy e colocar o tucano para encerrar a carreira de maneira ainda mais melancólica do que a desejada.

BN